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O estado de calamidade no Sul e as mudanças climáticas

* Leo Cesar Melo, CEO da Allonda, empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis

04/06/2024 às 14h46
Por: Maitê Maciel Fonte: Leo Cesar Melo
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* Leo Cesar Melo, CEO da Allonda, empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis Foto – Arquivo pessoal
* Leo Cesar Melo, CEO da Allonda, empresa de engenharia com foco em soluções sustentáveis Foto – Arquivo pessoal

Os gaúchos estão sofrendo há mais de um mês as consequências do rastro de destruição provocado por um extremo climático. Mas esse não é o primeiro caso em nosso país. No ano passado, para dar um exemplo nem tão distante assim, parte do litoral norte do estado de São Paulo foi devastada pelo que foi considerado o maior temporal da história do Brasil. Morros vieram abaixo arrastando toda a vegetação, provocando um grande mar de lama, derrubando casas, tirando vidas. No Rio Grande do Sul, o número de mortos já passa de 170, mais de 40 pessoas ainda seguem desaparecidas, além de 2,3 milhões severamente afetadas e ainda muitas cidades que estão sob a água ou na iminência de alagamentos.

De acordo com o pesquisador Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Processamento de Imagens de Satélite da Universidade Federal de Alagoas (Lapis), ainda em 2024 o Brasil está sujeito a outros eventos extremos climáticos em função das massas de ar provocadas naturalmente e por ação do homem. Isso reforça nosso papel nessas tragédias, visto que enquanto não cessarmos de fato práticas que colaboram potencialmente para a ampliação das mudanças climáticas, episódios como este do Sul se tornarão cada vez mais frequentes.

Embora existam diversos acordos e movimentos para descarbonização, transição energética, proteção de solos e biomas, já vivemos em um estado de emergência que demanda adaptações. Mas, até mesmo esse período em que deveríamos nos preparar para eventos inevitáveis como os que presenciamos no Rio Grande do Sul e em São Paulo, está sendo negligenciado. De acordo com relatório global publicado Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o progresso na adaptação climática está desacelerando, justamente quando deveríamos estar acelerando e, assim, conseguir acompanhar os crescentes impactos de mudança climática e seus riscos para a humanidade, a natureza e a economia mundial. Segundo a ONU, o financiamento da adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento registrou uma queda de 15% em 2021.

 Este retrocesso trata-se de um grande equívoco do ponto de vista ambiental, social e econômico. Para demonstrar o quanto o investimento em adaptação climática é urgente e necessário, estudos recentes indicam, por exemplo, que para cada bilhão de dólares investido na adaptação contra inundações costeiras, a redução em danos chega a aproximadamente 14 bilhões. Quando olhamos para a produção de alimentos, 16 bilhões investidos em agricultura sustentável por ano podem evitar que 78 milhões de pessoas passem fome ou fome crônica devido aos impactos climáticos.

O que aconteceu no Rio Grande do Sul é apenas uma de várias consequências das mudanças climáticas que testemunharemos nos próximos anos, incluindo tempestades catastróficas, secas intensas, escassez de água potável, incêndios severos, aumento do nível do mar, derretimento do gelo polar e declínio da biodiversidade. Mudanças que afetam a nossa saúde, nossa capacidade de cultivar alimentos, habitação, segurança e economia, entre muitos outros fatores que podem ser facilmente citados. Portanto, precisamos agir.

Ainda que os investimentos para as necessárias adaptações climáticas sejam realmente significativos, se não acelerarmos o ritmo de redução de emissões, aliando à adaptação climática, a conta certamente será muito maior. É preciso mudar o presente para garantirmos o futuro desta e das próximas gerações.

 

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